Desconectar para reconectar: fichas que caíram durante minhas últimas férias

Realmente precisava de férias. Dessa vez, fiz um trato comigo mesma: desconectar o máximo possível.
Não lembrava a última vez que tirei férias de verdade, sem levar o computador para estar minimamente disponível caso alguma emergência acontecesse. Também não foi dessa vez que consegui, já que tinha uma reunião no dia seguinte à minha chegada ao destino. De qualquer forma, após essa reunião, consegui me desconectar mais e não abri o computador novamente até retornar para casa.
Uma contextualização necessária
Fazendo uma breve retrospectiva, percebi que, em todas as viagens que fiz nos últimos cinco anos, trabalhei em todas: seja porque não tirei férias propositalmente, já que sou nômade digital, ou porque havia alguma tarefa para resolver (ou, mais recentemente, por conta do doutorado). Aliás, isso me lembra de um artigo relativamente recente da Forbes, do qual discordo veementemente. Após quase sofrer um terceiro burnout, tomei uma decisão drástica: deixar o trabalho e fazer uma viagem de, pelo menos, uma semana sozinha (quem me conhece sabe o quanto gosto de viajar sozinha e recomendo essa experiência pelo menos uma vez na vida).
O Acordo Comigo Mesma
O combinado foi:
- Tirar todas as notificações do celular (sim, todas). O celular funcionaria apenas como câmera, GPS e, no máximo, rádio.
- Remover redes sociais do celular. As que mais me distraem e causam ansiedade (LinkedIn, Instagram e YouTube) foram todas excluídas. Aproveitei e também excluí meu perfil em dating apps, mas isso é outra história.
- Olhar o WhatsApp apenas uma vez ao dia, para dar sinal de vida à família e responder somente as mensagens urgentes. As outras, só responderia após retornar de viagem.
- Carregar sempre um caderninho e caneta. Tenho o hábito de anotar tudo no bloco de notas do celular. Como não queria correr o risco de não me desconectar, levei um caderninho e caneta, no melhor estilo analógico, para anotar qualquer ideia que surgisse (geralmente, quando relaxamos, boas ideias aparecem, e não queria ser pega despreparada).
- Ler algo que não estivesse relacionado nem com Marketing, nem com o doutorado. Então, Kindle em mãos para finalmente ler um livro que estava pendente havia bastante tempo.
Lições aprendidas: como desconectar pode trazer clareza
Após uma semana de férias, muitas fichas começaram a cair. Nada era exatamente novo, mas eram coisas sobre as quais raramente paramos para pensar (ou que conhecemos na teoria, mas desconfiamos na prática). Estava em um lugar lindo e não queria estar ausente, seja por ansiedade, seja pela responsabilidade de estar conectada. Queria muito viver cada segundo das férias, dando total atenção a mim mesma. Vamos às lições aprendidas:
1. Não há nada mais libertador do que não ser mais refém do celular.
Tirar as notificações dos aplicativos foi tão importante e libertador que, até agora, não as reativei — e não pretendo fazê-lo. Obviamente, agora eu olho o celular com mais frequência, mas ele não me domina mais, como anteriormente. Sou EU quem decide a hora de olhar as mensagens (principalmente as do WhatsApp, que entram 24/7) e o tempo que vou dedicar a elas. Algumas redes sociais, como Instagram e YouTube, não voltaram para o celular. Não as desinstalei, mas agora ficam escondidas para que eu não fique entrando toda hora.
2. Caderninho e caneta: inspiração na bolsa
Ter um caderninho e uma caneta na bolsa pode ser inspirador quando uma ideia surge do nada. Sim, digitar é mais rápido, mas quem tem pressa? Não preciso escrever correndo porque estou de férias e não tenho nenhum prazo para cumprir — só quero dar vazão às ideias e garantir que vou lembrar delas mais tarde. Nessas férias, o celular serviu para duas únicas funções: GPS e câmera fotográfica. Apenas. A dificuldade foi, sim, entender os garranchos depois, com a caligrafia cada vez mais feia por falta de escrita manual.
3. Os planos mudam de acordo com o vento
Por mais organizado e amarrado que o roteiro da viagem esteja, Menorca funciona de acordo com os ventos, e, se a direção dos ventos mudar, os planos também mudam. É preciso flexibilidade. Os ventos em Menorca não só influenciam a experiência nas praias e trilhas, como também podem afetar a presença de águas-vivas. Se o vento estiver soprando em direção a uma costa, é provável que as águas-vivas sejam levadas para essa área, tornando a praia menos agradável ou segura para nadar. Eu, que não sou muito auto-confiante com o mar, não queria dar mole. Portanto, estar atenta à direção do vento e ajustar os planos foi essencial para garantir uma experiência de praia agradável e segura. Qualquer semelhança com a vida real, não é só mera coincidência.
4. Não dá para fazer tudo, e tudo bem
Menorca é linda! E é grande (não tanto como Mallorca, claro), mas ainda assim, uma semana é pouco para explorar as belezas da ilha. Não dá tempo de fazer tudo o que se quer, e isso é normal. Não temos tempo para tudo nem na vida, e sequer conhecemos em detalhe a cidade em que moramos! O que são seis dias de viagem em um lugar imenso, lindo e cheio de trilhas e praias para explorar?
5. Estar em seu próprio silêncio pode trazer algumas clarezas ensurdecedoras.
Esta foi uma das muitas viagens que já fiz sozinha (será que tá na hora de um novo blog sobre viagens solo? 🤔), mas uma em que realmente precisava estar sozinha após tanta turbulência e emoções em um período tão curto de tempo. Quem me conhece sabe o quanto recomendo viagens solo, e isso é só mais um reforço dessa sugestão. Quando estamos em silêncio e conectados com nossos pensamentos e sentimentos, algumas verdades e respostas podem vir à tona de forma tão clara. Além disso, sempre gostei de estar na natureza para me conectar mais comigo e entender outros aspectos sobre mim. Parece que o Sol de Menorca iluminou alguns cantinhos escuros dentro de mim, que não estava enxergando. Alguns cantinhos lindos, outros nem tanto. Mas faz parte.
6. Tente ser mais analógico do que digital
A vida já é muito digitalizada, e precisamos olhar mais para frente do que para baixo, além de colocar mais óculos de sol e menos óculos de grau. 😎 Percebi o quão dependente sou do celular. No primeiro dia, foi fácil não querer pegar o celular, mas no segundo, tive que me esforçar um pouco. Era como uma crise de abstinência da tecnologia. Bem louco. Mas depois passou, me acostumei, e até “perdia” o celular na bolsa. Esse foi um hábito que, felizmente, consegui manter, pelo menos um pouco. É claro que agora olho o celular mais vezes, já que “voltei à vida”, mas a dependência e a urgência de responder tudo em tempo real diminuíram bastante. E isso é ótimo.
7. E não é que o tal do ócio criativo existe mesmo?
Na verdade, nunca duvidei da existência do ócio criativo, mas sempre senti uma certa “culpa” em tirar proveito disso. Com a vida tão atribulada, nunca tive muito tempo para estar “à toa”. Mesmo conhecendo e acreditando no conceito de que o tempo livre pode ser altamente produtivo para gerar novas ideias, soluções inovadoras e um maior bem-estar pessoal, foi nessa semana, em que estive 95% desconectada, que percebi como as ideias surgiam sem esforço. E, de vez em quando, precisava tirar o caderninho da bolsa para anotar, porque sabia que esqueceria tudo depois.
Conclusão: A Importância do Equilíbrio e da Flexibilidade
Apesar de nada disso ser nenhuma novidade ou descoberta mirabolante, gostei de reconectar com esses aspectos e estou tentando manter essa rotina. A vida segue, e temos que trabalhar, estudar, viver etc., mas passei a valorizar muito mais não só as férias (que tirei poucas na vida), como também a importância de inserir pequenos momentos de lazer e desconexão durante a semana.
Tentando ser mais “indisciplinada”
Não sei se pela rigidez do ballet clássico, que estudei desde pequena, ou por características pessoais, mas sempre fui extremamente disciplinada, mais do que o normal (com horários, nem tanto). Sempre cumpri todas as tarefas de trabalho, estudo, aulas, deadlines etc., com muita responsabilidade. Sempre tive orgulho de equilibrar 500 pratinhos sem deixar nenhum quebrar. Mas o preço disso é, geralmente, muito alto.
Não estou dizendo que, a partir de agora, serei a pessoa mais relaxada do mundo, que deixarei prazos passarem e deadlines estourarem. Claro que não. Essa não sou eu, e minha ansiedade jamais me deixaria dormir se me comportasse assim.

Mas vou tentar incluir mais breaks na rotina, pegar mais leve comigo mesma e aceitar que, às vezes, os planos vão ter que mudar, assim como os roteiros de viagem se adaptam aos ventos de Menorca.
E tudo bem. 🙂