Sobre cheiros, memórias, histórias e saudades

Sempre tive uma memória olfativa muito forte. Lembro do cheiro da casa da minha avó materna, que era diferente do cheiro da casa da minha avó paterna. Também lembro muito bem do cheiro da escola e do vestiário do estúdio onde estudava ballet. Até muito pouco tempo atrás, cada vez que retornava ao vestiário do estúdio, já como professora de flamenco e não mais como aluna de ballet, o cheiro das sapatilhas suadas me remetiam à minha infância e àquela menininha que adorava dançar e que um dia sonhava com palcos maiores.
Também lembro e penso muito do cheiro do abraço da minha mãe, que era diferente do cheiro do abraço do meu pai. Agora, como emigrante, cada vez que revejo os meus pais, seja no Brasil ou quando eles vêm me visitar, o cheiro dos seus abraços me faz viajar no tempo e voltar, de novo, à minha infância. É engraçado como os abraços dos nossos pais nos faz sentir tão pequenos e indefesos. Bom, melhor falar por mim. Mas é assim que eu me sinto. Como se eu fosse novamente uma criança sem saber fazer nada dessa vida. Na casa da minha mãe, eu nem cozinho.
Falando em cozinhar, esse texto era inicialmente sobre isso. No outro dia, chegando em casa depois do doutorado, aqui na Espanha, passei pelo corredor do prédio e o cheiro do almoço da casa de alguém era tão forte e tão agradável que, imediatamente, lembrei de quando voltava da escola e, já no corredor de casa, sentia o cheiro do almoço da minha mãe. Também acontecia quando ia almoçar na casa da minha avó. Ela sempre fazia umas batatas fritas que eu nunca mais comi na vida. Só ela fazia daquele jeito: gordinha, macia, não tão crocante, mas muito deliciosa. E eu adorava sair da escola e almoçar na casa da minha avó porque eu tinha certeza de que ia ter batatas fritas.
Nesse mesmo dia que senti o cheiro no corredor de casa voltando do doutorado, fui à uma aula de flamenco onde, antes de iniciar a aula, a professora pediu que cada um dissesse um cheiro. Era uma daquelas aulas de processo criativo, meio conceituais e a ideia era que a gente dançasse de acordo com o cheiro que tivesse em nossa mente. Só fui saber disso depois (óbvio, se não teria respondido algo diferente. Ou não). Respondi “cheiro de comida da minha mãe”. Todo mundo riu e perguntou se estava com fome. E expliquei que não, que não tinha nada a ver com fome.
Tentei ser breve porque, afinal de contas, não era uma aula particular e não queria passar o tempo todo falando sobre mim. Mas o que tentei explicar, talvez de forma demasiado sucinta, foi: moro fora do Brasil há muito tempo, e muito longe da comida da minha mãe. Cada vez que chego em casa e sinto cheiro de comida na casa de alguém, fico feliz pelas lembranças, mas triste ao mesmo tempo. Principalmente porque sei que o cheiro não vem da minha casa e, pra comer aquela comida do cheiro, tenho que fazer eu mesma. E, novamente, todo mundo riu com a minha resposta.
Quando eu mesma cozinho, até gosto do cheiro da minha comida. E também do sabor (não é como a da minha mãe. Ela está em outro nível). Mas, não sei explicar, o cheiro da comida da minha mãe, o que eu sentia já no corredor do prédio, era uma mistura do cheiro do alho refogado com alguma coisa que eu sempre ficava tentando adivinhar. Mas era sempre algo muito bom. Mesmo que fosse um arroz, era “o” arroz. Ou “o” feijão (e eu nem gostava tanto de feijão assim).
Quando fui morar no Canadá, não sabia nem fritar um ovo. Minha mãe nunca me deixou cozinhar em casa. Nunca soube se era ciúmes da cozinha, falta de confiança, ou excesso de zelo. Até hoje não cozinho quando visito meus pais no Brasil (nem quando eles vêm me visitar). Mas, voltando ao Canadá, cheguei com um livrinho de receitas escrito à mão que minha mãe fez para mim. Muito lindo. Cheio de mensagens lindas, super caprichado e com aquela caligrafia perfeita que a minha mãe tem, de professora de Português.
Lembro que a primeira vez que abri o livrinho foi na hora de fazer o meu primeiro arroz (em uma frigideira, porque ainda não tinha comprado minhas panelas) e, só então, vi que minha mãe tinha escrito um texto lindo de abertura, sobre cozinhar, independência e morar fora. Chorei ao fazer o meu primeiro arroz. Não de emoção pelo arroz, mas pelo texto e a “já” saudade da comida da minha mãe (ou talvez de emoção pelo arroz. Vai saber…).
Meu primeiro apartamento no Canadá era em uma rua com muito mais casas do que prédios, o que me fazia sentir o cheiro das comidas das pessoas já na rua. Chegava do trabalho por volta das seis da tarde e sempre (sempre) tinha uma casa, na esquina com a minha rua, que tinha um cheiro de bolo quentinho de chocolate todos os dias. Eu tinha muita inveja de quem morava naquela casa. Na minha casa nunca haveria um bolo de chocolate: 1) porque eu estou sempre de dieta, 2) porque eu não sei fazer bolo de chocolate (e não preciso aprender agora, a não ser que seja funcional e sem açúcar); 3) porque eu jamais vou saber fazer um bolo de chocolate tão bom quanto o da minha mãe, que ainda por cima tinha um toque todo especial e só dela, de licor de menta.
Lembro muito bem do cheiro de bolo de chocolate da casa na minha esquina no Canadá, que é bem diferente do cheiro da comida do meu vizinho aqui na Espanha. Apesar disso, os dois cheiros me remetem à saudade. Uma saudade decorrente da independência e de liberdade que eu sempre busquei ter, e que são o preço que eu tenho que pagar, diariamente, por calçar de novo aquelas sapatilhas, correr atrás dos meus sonhos e dançar em palcos maiores da vida.
E continuo tendo uma memória olfativa muito forte. Conheço muito bem o cheiro da minha comida, que é bem diferente do cheiro da comida da minha mãe.